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TV Tupi – Glória e Derrota de uma PioneiraFalar
em TV Tupi é falar em Assis Chateaubriand, um empresário que havia fundado
em 1947 o MASP (Museu de Arte de São Paulo) e que muitos dizem ter sido a
versão tupiniquim de William Randolph Hearst. Chateaubriand
sofreu uma trombose cerebral em 1960. Ficou paralisado e quase não podia
falar. Um ano antes, ele decidiu dividir o controle das suas empresas com 23
funcionários, que se tornaram condôminos. Nasceu assim o condomínio dos
Associados, que iria comandar a TV Tupi até a sua falência, em 1980.
Chateaubriand morreu bem antes disso, em 1968. A
TV Tupi foi o primeiro canal de televisão da América Latina, inaugurado
no dia 18 de setembro de 1950, em cerimônia solene que contou com um hino
especialmente composto para a ocasião, chamado "A Canção da TV".
Uma jovem atriz chamada Yara Lins foi convocada especialmente para
dizer o prefixo da emissora – PRF3 Canal 3 de São Paulo (tempos depois é
que mudou para o canal 4). Em seguida, foi ao ar uma série de atrações que
incluíam concertos clássicos, esquetes humorísticos e apresentação de
cantores do rádio. Lá, já estavam Hebe Camargo e Lima Duarte... Há muitas histórias a respeito desse dia. Uma delas é que, empolgado, Chateaubriand teria quebrado uma garrafa de champanhe numa das duas câmeras, fazendo com que a tevê no Brasil entrasse em cena com apenas 50% de sua capacidade. A outra é que acabada a inauguração, a equipe se deu conta de que não havia o que colocar no ar no dia seguinte, pois ninguém havia pensado nisso. Chateaubriand era proprietário de jornais, revistas e emissoras de rádio (entre elas a Rádio Tupi e a Rádio Difusora de São Paulo). Com o dinheiro de suas empresas comprou equipamentos nos Estados Unidos e trouxe a televisão para o Brasil, criando assim a TV Tupi Difusora. Artigos de jornais e revistas da época tratavam a vinda da Televisão para o Brasil com êxtase. Obviamente, tudo era muito rústico. Os equipamentos eram enormes, tudo era muito precário, ao vivo e em preto e branco. A programação só ficava três horas por dia no ar, sempre a partir das 20 horas. Imagens do Dia" foi o primeiro telejornal brasileiro, tendo sido lançado em 19 de setembro de 1950. O apresentador somente lia a notícia, que já havia saído na imprensa escrita e no rádio. Era quase impossível sair do estúdio e gravar imagens externas devido ao peso e a dificuldade de se manusear os equipamentos.
"Rancho
Alegre" foi o
primeiro programa humorístico da tevê no Brasil. Contou com a presença do
comediante Mazzaroppi e foi ao ar pela primeira vez em 20 de setembro de 1950.
O
programa era marcado por muita improvisação, cenário precário e durava
no máximo 20 minutos. "Gurilândia" foi o primeiro programa infantil da TV brasileira e estreou em outubro de
1950. Dessa maneira, a programação da tevê era curta e se resumia em
pequenos shows musicais, humor, teleteatro, telejornais e filmes, geralmente
legendados. O teleteatro foi importante, pois ajudou a tevê a descobrir a sua
própria linguagem. Os atores famosos do teatro davam "status" à
programação televisiva. Mas devido a diferenças de linguagem, os profissionais do rádio e do teatro que foram para a tevê tinham dificuldades:
as expressões eram exageradas, os atores falavam muito alto (como se não
existisse microfone) e não respeitavam as marcações das câmeras,
deixando os cinegrafistas completamente perdidos. O primeiro teleteatro de
importância estreou em 1951 e se chamava Grande Teatro Tupi. Na
sua primeira fase, a Tupi contou com programas que fizeram história:
Vale
dizer que o programa "TV de Vanguarda"
revelou uma primeira geração de atores, atrizes e diretores. Nele foram
apresentadas peças como Hamlet e Crime e Castigo. Tudo vinha do rádio: autores, técnicos,
elenco etc. Tinham poucos capítulos
e eram transmitidas ao vivo, duas vezes por semana. Eram capazes de ousar,
como mostrar um beijo na boca, em 1951, na novela "Tua Vida Me
Pertence", onde a atriz Vida Alves deixou-se beijar pelo galã Walter
Foster. Mas foi somente com a novela "O Direito de Nascer" que a Tupi conseguiu repercussão nacional, no ano de 1964. A trama era cubana e já havia sido adaptada para o rádio. Seu final teve duas festas comemorativas: uma no Ginásio do Ibirapuera em São Paulo e outra no Rio. Em 1968, surge então "Beto Rockfeller", uma novela que retratava o cotidiano do brasileiro. Uma verdadeira revolução!
Alguns
programas dos primeiros tempos da TV Tupi tornaram-se campeões de audiência.
Foram os casos de "Alô Doçura"
(uma imitação da sitcom americana I Love Lucy, protagonizada
por Eva Wilma e John Herbert), Sítio
do Pica-Pau Amarelo, "O Céu é o Limite" (com J. Silvestre),
"Clube dos Artistas" (que foi ao ar entre 1951 e 1980) e o famoso telejornal
"Repórter Esso" (que ficou cerca de 18 anos no ar). Os locutores
Herón Domingues e Gontijo Teodoro entravam no ar com as
últimas notícias nacionais e internacionais ao som de um dos mais famosos
prefixos musicais da história. Se
durante a primeira década de sua existência a Tupi foi líder absoluta,
nos anos 60 a concorrência – principalmente da Record e da Excelsior - se
fez sentir. A morte de Assis Chateaubriand em 1968 marcou o início de uma
crise longa e sem solução. As emissoras concorrentes foram ocupando os
espaços vazios deixados pela pioneira. Ano após ano, a crise se
aprofundou. Nos anos 70, com o domínio avassalador imposto pela Rede Globo,
a situação era incontrolável. Os salários atrasavam e haviam dívidas
astronômicas junto à Previdência Social. Proliferavam também escândalos
financeiros. Além da audiência, a publicidade também debandava para as
concorrentes. O caixa estava a zero, os salários deixavam de ser pagos e
uma greve era questão de tempo. Em outubro de 1977, com três meses de salários
atrasados, os funcionários iniciaram a primeira greve, interrompida com o
pagamento parcelado dos débitos. Os constantes atrasos dos salários mantinham o clima tenso na emissora. As perspectivas de pagamento dos atrasados eram cada vez mais remotas e as explicações dadas aos funcionários, cada vez mais inconsistentes. Para piorar ainda mais a situação, em outubro de 1978, um incêndio atingiu o prédio da emissora em São Paulo. No ano seguinte, o elenco da telenovela "O Espantalho", de Ivani Ribeiro, processou a emissora por violação de direitos autorais. Entre 1979 e 1980, outra greve. A crise chegou ao Distrito Federal. O então presidente da República, João Figueiredo, se dispôs a receber uma comissão de dirigentes dos sindicatos envolvidos. A greve persistiu até o início de fevereiro de 1980, quando a emissora fechou seu departamento de teleteatro e dispensou 250 funcionários. Foram interrompidas as novelas "Drácula" e "Como Salvar Meu Casamento" (esta estrelada por Nicete Bruno e Adriano Reis). Em
17 de Julho de 1980, pouco antes de completar 30 anos no ar, a TV Tupi teve
sua concessão cancelada pelo governo federal. Minutos antes do meio-dia de
18 de julho de 1980, três engenheiros do Departamento Nacional de
Telecomunicações (Dentel) subiram ao décimo andar do edifício-sede da TV
Tupi de São Paulo, na avenida Alfonso Bovero, bairro do Sumaré,
lacrando o transmissor da emissora. Um delegado da Polícia Federal e mais
quatro agentes davam proteção aos engenheiros. Era o fim da pioneira, que
saiu do ar exatamente 29 anos e dez meses depois de sua inauguração. Além
da saudade, ficou um acervo de 200 mil rolos de filmes, 6,1 mil fitas de
video-tape e textos de telejornais que contam 30 anos de muitas histórias do
Brasil e do mundo. Curiosidades Tupi
Pecados de uma Pioneira Apesar
do pioneirismo, não coube à Tupi determinadas glórias. Pelo fato de não
existir mais, não exibe o programa de maior permanência no ar, comandado
pelo apresentador Silvio Santos (que está desde 1962 no ar e que já teve
os mais variados títulos). Não coube a emissora exibir o primeiro seriado
nacional (Capitão 7 da TV Record, exibido em 1954). Não coube a Tupi e sim
à Excelsior, exibir a primeira novela diária
da televisão brasileira, assim como também coube à Excelsior, exibir a mais
longa ("Redenção", que durou de 1966 a 1968 com quase 600 capítulos). Também
não foi a primeira a transmitir em cores, tampouco a primeira a exibir um
telejornal em rede nacional via satélite em 1969 (mérito este conquistado
na ocasião pela Rede Globo com o "Jornal Nacional"). Na memória curta...
M A
popularidade de "Almoço com as Estrelas" estendia-se – com o mesmo casal de
apresentadores – para o "Clube dos Artistas", levado ao ar com regularidade nas noites de sexta-feira.
Vale dizer que este programa também chegou a ser apresentado por Homero
Silva e Cacilda Lanuza. Outro
apresentador com a cara da Tupi era Flávio Cavalcanti. O seu programa
"Um Instante Maestro" marcou época e revelou vários talentos para o meio
artístico. Flávio era sério e polêmico. Falava duramente e, da mesma forma, criticava lançamentos fonográficos. Tinha no seu
corpo de jurados famosos da época o costureiro Denner e o maestro Erlon
Chaves. Poucos lembram – ou sabem – mas foi a Tupi quem exibiu pela primeira vez os três primeiros filmes da série 007. Exibiu "O Satânico Dr. No" (Dr. No) em 1974, "Moscou Contra 007" (From Russia with Love) em 1975 e "007 Contra Goldfinger" (Goldfinger) em 1977. Como a emissora fechou em 1980, a partir dos anos 80 a Rede Globo reapresentar esses três primeiros filmes e prosseguiu com a exibição do restante da série. Em
termos de séries de tevê, casos representativos para a Tupi foram as
exibições de Bonanza e O
Fugitivo.
Bonanza
foi produzida nos Estados Unidos entre 1959 e 1973, tendo conseguido a façanha
de acumular 430 episódios, todos coloridos. A TV Tupi exibia a série em
preto e branco aos sábados às 21h. Era um programa familiar, sagrado, que ninguém perdia. Tipo da coisa típica de uma época em que o brasileiro
reunia a família na sala por gostar de ver o dia a dia de um velho viúvo e
solitário que comandava uma fazenda tendo apenas a companhia de três filhos
homens (será que alguém gostaria de ver isso hoje em dia?). Embora a história da primeira transmissão em cores seja outra, a Tupi importou na década de 60 películas coloridas de Bonanza, exibindo-as no sistema de cor NTSC. Só assistiu Bonanza em cores naquela oportunidade quem tinha aparelho de televisão importado que comportava esse tipo de sistema.
Ao
contrário do que se possa pensar, a Tupi não tinha tradição em mostrar
grandes seriados. Sabe-se que seu forte estava mais em longas. Mas tinha
algo peculiar, como reprisar durante a semana, em plena década de 70, já
em cores, a série Jornada nas
Estrelas (Star Trek) na parte da tarde. O seriado já havia sido exibido
na década de 60 pela Excelsior, sem grande repercussão. A emissora também
exibiu Viagem ao Fundo do Mar, Danger
Man, O Marcado, O
Valente do Oeste, Os Intocáveis,
O Homem de Virgínia, Disneylândia,
Banana Splits e Papai Sabe Tudo. Foi
também a Tupi a grande lançadora de desenhos como A
Pantera Cor de Rosa e O
Inspetor
, assim como a série estrelada por macacos chamada Lancelot
Link. Com seu impecável uniforme da aeronáutica, capacete de piloto com duas asinhas desenhadas, óculos de lentes negras e diversas medalhas, lá estava o Capitão Aza. Wilson Vianna bradava o refrão de abertura de seu programa "Alô, alô Sumaré! Alô, alô Embratel! Alô,alô Intelsat 4! Alô, alô criançada do meu Brasil! Aqui fala o Capitão Aza, comandante-chefe das forças armadas infantis desse Brasil!". Programa diário, de segunda à sexta, ficou no ar durante 14 anos, apresentando desenhos animados e séries hoje consideradas clássicas como A Feiticeira, Jeanne é um Gênio, Speed Racer e Corrida Maluca. A
partir de dezembro de 1972 a emissora lançou uma sessão de fim de noite
chamada "Série de Ouro". Nela, a intenção era reprisar grandes séries de
um passado recente. Por ali passaram num espaço de dois anos atrações
como Alma de Aço, O Agente
da UNCLE, A Garota da UNCLE, além de Mannix (que a emissora chegou a exibir em cores). A
apresentadora Ana Maria Braga chegou a ser apresentadora de
telejornal na emissora. O comediante Costinha, o cantor Moacir Franco e o
humorista Chico Anísio chegaram a ter programas próprios em horário
nobre. O programa "Pinga Fogo"
marcava o final da noite de sexta feira com entrevistas dos mais variados
segmentos. Há
ainda que acrescentar que em termos de futebol a emissora era realmente nota
10. Um dos mais famosos programas do início dos anos 70 era o
"Redação Esportes", comandado por Walter Abrahão de segunda à sexta, por
volta das 12h. Ele era o chefe de uma equipe que incluía Sérgio
Backlanos, Eli Coimbra, Gerdi Gomes e Geraldo Bretas. As transmissões de
futebol eram recheadas de bom humor. Abrahão – que depois enveredou pela
carreira pública e que hoje reside no bairro da Casa Verde em São Paulo
– é o único remanescente dessa equipe sem nenhum sobrevivente, já que
todos os demais faleceram. Domingo às 23h entrava no ar o esportivo
"Ataque e Defesa", sob o comando de Rui Porto, com os gols do final de semana.
Novela sempre foi um detalhe a parte na TV Tupi. Dali saíram grandes nomes
que hoje ainda estão na ativa e que por muito tempo foram rechaçados pela
Rede Globo pelo fato de não possuírem o tal "padrão de qualidade". Lembrar
de todos é uma missão quase impossível, mas ficaram marcados os nomes de
Juca de Oliveira, Rubens de Falco, Toni Ramos, Denis Carvalho, Adriano Reis,
Gianfrancesco Guarnieri, Sérgio Cardoso, Carlos Zara, Carlos Augusto
Strazzer, Eva Wilma, Maria Izabel de Lizandra, Jussara Freire, Antonio
Fagundes, Irene Ravache, Elaine Cristina, Flávio Galvão, Walter Foster,
Vida Alves, Fernanda Montenegro, Hélio Souto, Lima Duarte, Luiz Gustavo,
Nathália Timberg, Ioná Magalhães, Carlos Alberto, Carlos Alberto Ricelli,
Othon Bastos, Bruna Lombardi, Henrique Martins, Bete Mendes, Isabel Ribeiro,
Altair Lima e tantos outros que protagonizaram sucessos como "O Direito de
Nascer", "Beto Rockfeller", "Antonio Maria", "Nino
- o Italianinho", "O Machão", "Mulheres de Areia",
"O Julgamento", "A Viagem", "O Profeta",
"Calúnia", "Gaivotas", "Éramos Seis", "Cinderela
77", "Aritana", entre outros. E
para finalizar, "Os Trapalhões", que apareceram na TV Excelsior em 1966 com o título "Adoráveis
Trapalhões", porém formados por Renato Aragão, Dedé Santana, Ivon Cury, Ted Boy Marino e
Vanusa. Durante o final dos anos 60 e início dos 70, na TV Record, eram
chamados de "Os Insociáveis" (sem Ivon Cury, Ted Boy e Vanusa, mas já com
Mussum). Mais tarde, pela Tupi, ainda nos anos 70, assumiram a formação que
mais tarde os levaria para a Rede Globo (com a inclusão de Zacarias). Conclusão Claro
que existem mais fatos a serem lembrados e contados. Não é minha pretensão
esgotar por aqui o assunto. Mas confesso que me decepcionei quando o sinal
da Tupi sumiu de nossas telas. Sempre acreditei que jamais aconteceria com ela o que
já havia acontecido com a Excelsior, cerca de 10 anos antes. Pensava eu que
por ser pioneira nenhum governo do mundo a deixaria desaparecer. Para meu
espanto ela se foi. E levou junto a tradição de um veículo pioneiro, que começou
precariamente, que sempre caminhou aos tropeços, sempre foi mal
administrada, nunca teve um perfil que a caracterizasse dentro de uma grade
de programação, mas que marcou a vida de muita gente em vários momentos
de sua trajetória. Concebida inicialmente sem concorrência, teve seu
melhor momento de reinado na década de 50. Sofreu com a concorrência na década
de 60, época revolucionária onde a audiência era muito pulverizada. Nos
anos 70, em constante crise, sofreu com o domínio da TV Globo até falir em
1980. Com ela foi-se uma tradição e um ambiente restrito ao prédio onde
ficava localizada na Avenida Alfonso Bovero, bairro do Sumaré em São Paulo.
Acabou-se o tempo em que astros e estrelas da emissora aproveitavam intervalos
de trabalho para se reunir e comer algo na esquina, onde fica
localizada até hoje a Padaria
Real... Fonte: Internet e arquivo pessoal
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